As decisões de uma maratona

Toda prova, especialmente a maratona, começa com uma grande decisão. No caso dos 42k a primeira decisão que eu costumo (ou costumava) tomar é: vou correr direito essa prova.

E o “vou correr direito” significa, ao longo da jornada, assumir outras grandes e pequenas decisões. Ou seja, é tomada de decisão que não acaba mais!

Talvez para pessoas de pouca fé minha história com os 42K de Floripa não passe de maluquice, mas quem acredita numa força maior que comanda tudo, vai entender que isso é um testemunho. Eu não meti a louca e tomei essa grande decisão num impulso. Quem me conhece sabe que sou uma corredora responsável e jamais resolveria do dia pra noite participar uma maratona, se não tivesse muita certeza do que estava fazendo.

Se vcs me perguntarem de onde veio toda essa certeza, eu vou responder que veio DELE. Cheguei em Floripa na quinta de manhã e de tarde alguma coisa aconteceu, que comecei a pensar em trocar meu número de peito. Era uma ideia firme e segura, que nem eu mesma entendia de onde vinha.

Em nenhum momento minhas reflexões sobre essa decisão foram dúvidas, pois eu sentia no meu coração que tinha que fazer aquilo e que não ia dar errado, era só uma questão de preparação mental* e planejamento estratégico.

Eu sou uma pessoa bem cagona, quando chego na largada me transformo mas sofro bastante na véspera, então imaginem na véspera de uma maratona que eu sequer programei de correr!

*meu preparo mental consiste em pensar nas pessoas que amo, em como gosto de correr, pensar também no que estou vivendo agora e principalmente, pensar que estou fazendo tudo isso porque amo!

Troquei alguns áudios com a Debs e com o Wanderley, que em nenhum momento me desencorajaram, o que até me surpreendeu. Por isso que eu acho que foi tudo meio sobrenatural. O capitão é uma pessoa bem equilibrada e acho pouco provável que, se não fosse num cenário sobrenatural como aquele, ele teria me dito pra correr a maratona.

Pois ele disse. A Debs tb disse.

Dali em diante todas as minhas decisões fluíram como água no Rio. Uma amiga, a Si Perdigão, que conheci ali mesmo, me emprestou seu relógio. Escolhi um dos 2 tênis que tinha levado na viagem (React e Free. React foi o escolhido) que num primeiro momento era para trabalhar e correr os 21k. Uma roupinha simples, com camiseta da prova, boné de onça da sorte e minha estratégia de comidas foi carregar duas bananinhas dentro do top.

No domingo de manhã, quando fui ao banheiro dar aquela LIBERADA já senti que estava num bom dia e quase tirei uma foto do vaso p mandar pro meu marido de tão bonito que tava o cocô. E gente, na minha opinião, cocô bonito e grande é um ótimo sinal!

Fui para a largada com os meninos do trabalho, e ao me posicionar para começar a correr Deus colocou uma mulher FODA do meu lado, que foi quem me guiou durante quase toda a prova. Essa é a história da Adriana Piza:

Eu tinha feito Maratona em 1999 e 2000. Corria desde a década de 80. Meus filhos nasceram em 2001 e 2004. Em 2006 tive o câncer. Estava começando a tentar a voltar a correr… como você, com 2 filhos pequenos não conseguia muita coisa, corria quando dava. Quando tive a notícia, entre tanto desespero, me veio na cabeça que se em 10 anos eu tivesse viva e bem, comemoraria fazendo mais uma maratona. Em 2016 queria cumprir a promessa, mas meu pé não deixou… já havia operado um em 2014, operei o 2º em 2016. A recuperação foi horrível, demorou quase um ano. Em 2019 me senti pronta. Queria uma no 1º semestre, e que fosse no Brasil (na minha cabeça seria mais justo se fosse aqui). Acabou sendo Floripa, da melhor maneira possível! Depois tem uma 2ª parte… em 2010 teve outro nódulo na pouca mama que sobrou… mas é outra história, e talvez por isso eu tenha que correr Boston 2020…

Amigxs, quando ela acabou de me contar essa história, faltando 1 minuto pra dar a largada, tive certeza absoluta que era outro sinal que eu estava vivendo uma experiência fora do normal. Não consigo colocar em palavras o que senti, foi muito forte e especial. Ressignificar. Odeio essa palavra, mas não encontro outra para definir o que estava vivendo com a corrida naquele momento. E na verdade não era mais só sobre corrida…era algo bem maior.

Não senti medo, não senti dor de bariga, não senti nenhum tipo de insegurança, a única coisa que eu sentia era algo me dizendo: “Só vai…”. E cara, eu fui. Escolhi 5 como meu pace, perguntei pra Duda se podia ir com ela e fomos juntas até pouco depois do km 25.

E lá veio mais uma cacetada de microdecisões a serem tomadas. Embora eu soubesse que aquela prova era minha, meu momento de renascimento, meu divisor de águas…eu sabia também que dali em diante não seria fácil. Corri os primeiros 25km deliciosos ao lado da Duda, com duas bananinhas dentro do meu top – just in case – e perto do 30, já com algum sofrimento, comecei as negociações comigo mesma para chegar bem no final.

“Manter o pace ou diminuir? E se eu andar só um pouquinho para organizar as idéias? Senhor, me ajuda, preciso de força pra continuar e sabedoria pra não me deixar dominar. Estou no km 35, faltam só 7km. 7km é a distância que mais corri depois que Nicolino nasceu. Putz, verdade, nem sei mais o que é um longo. Peraí, isso aqui q eu tô fazendo é um longo. Porra, eu corri quase 40km. Quanto tem mesmo uma maratona? Quero acabar logo isso aqui pra nunca mais!

Resumindo, foi isso. 3:30:49

49 segundos acima do meu planejado.

Não senti nada além da dificuldade em dominar minha mente e a vontade de parar. Aliás, é pra isso que servem os treinos longos né? Perna eu tinha, fôlego também, o que estava me faltando era paciência e calma pra administrar os kms finais. Pensei muito no parto, e naquele momento percebi que o paralelo que fiz quando estava parindo não foi uma viagem.

Realmente parir está para correr uma maratona. Eu vivi isso, tá muito fresco na minha cabeça. Me lembro de cada detalhe de ambas as estradas e de cada uma das 2 finish lines que me motivaram a não desistir: meu filho e os 42km.

Correr essa prova neste momento não foi apenas um “chamado” sobrenatural, foi um chamado com propósito. Propósito de me (RE)encontrar. De (RE)descobrir por que corro. Quem eu sou na fila do pão da corrida. Enfim, de me enxergar novamente como alguém que faz o que faz porque ama.

E mesmo sem ter contado antes sobre esse chamado, acho que deu pra perceber como os 42k de Floripa me transformaram. Espero eu, que numa pessoa melhor. Mais intuitiva, mais segura em assumir riscos, mas aberta à ouvir e aprender com as histórias das outras pessoas, mas principalmente, a entender que corrida é algo pra trazer prazer e emoção pra vida.

Acabei a prova com certeza absoluta de que não queria mais correr maratona, e até hoje tenho essa certeza. Mas até aí, que diferença faz? Antes de correr Floripa sentia a mesma coisa, que não queria mais correr maratona.

E correr essa maratona sem querer correr uma maratona, acabou me levando a aceitar o convite de correr a Maratona de Chicago…mesmo sem querer correr outra maratona.

Na real, agora acho que quero.

Assim eu sigo não questionando as vontades DELE na minha vida. Se eu tivesse questionado e dado para trás, hoje eu não estaria aqui escrevendo esse texto sobre uma experiência sobrenatural, não teria conhecido a Duda e não iria pra Chicago com a Nike.

Eu demorei a escrever pq demorei a entender. Assim a vida segue.

3 comentários Adicione o seu

  1. Vanda disse:

    Nossa, nem sei o que dizer depois de ler isto, além de muito obrigada!

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  2. MARINA JACOB DAUR disse:

    Ai meu deus do céu. Minha musa (é musa sim, não reclama, a musa é minha hahaha) corredora voltou a correr maratonas e ainda mandou um textão desses, bicho! Até eu que não sou de rezar, essas coisas, arrepiei. Voa, Pá! Voa que eu ainda quero correr uma prova do seu ladinho, no seu pace monxtro! ❤

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  3. Migaaaa ! Que maravilhoso eu nem tenhos palavras pra descrever e o quanto estou feliz em ler isso ! Você disse muito sobre o que tenho ouvido de pessoas diferentes e tudo mais uma vez se confirmando em minha vida ! Você ressignificou algo que seria duro e dificil . Uma maratona é uma maratona . Porem o seu Rio estava transbordando muito e nao tem como conter um rio que tranborda ?! que o Pai continue te direcionando e que você venha viver coisas inimaginaveis com ele , que você continue fluindo quebrando paradigmas no mundo fisico e espiritual .E lembre se você pode transbordar a onde quiser pois você sabe aonde é a fonte e que o acesso a ele é ilimitado ! ❤ amei ler e que venham mais testemunhos e experiencias mais doidas com o seu Pai celestial ! Te amo 🤜🤛❤

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